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sexta-feira, dezembro 30, 2011

A História de um Anjo - Parte 12

"(...) Aegus pairava em frente ao carro, e Paragon, atrás dele. Ambos estavam atentos, asas abertas e espadas desembainhadas. Até a parada na pousada eu havia voado com eles. Mas algo parecia suspeito nesse carro de boi, então tomei a forma de uma pessoa. Rapidamente eu me arrependi de não ter escolhido a forma de um jovem mercador (a barba que eu usava coçava horrivelmente).
Meu batalhão não precisava que eu os lembrasse, mas eu o fiz mesmo assim:

O INFERNO NÃO QUER QUE EMANUEL NASÇA. FIQUEM ATENTOS.

Anjos invisíveis rodeavam o carro. Eu sorria para mim mesmo. Simão poderia ter guiado de olhos vendados. Não havia forma de esse carro ter falhado em chegar ao seu destino.
A estrada congestionada atrasava nosso progresso. Nós não viajávamos com mais velocidade do que as pessoas que estavam a pé à nossa volta, mas pelo menos Maria poderia descansar. Ela fechou os olhos e encostou a cabeça na lateral do carro. Eu podia ver o resplendor de seu útero que brilhava como um fogo curativo. Eu o adorava mesmo antes de nascer. Meu coração celebrava canções silenciosas de louvor que ele podia ouvir. Eu sorri quando Maria o sentiu mexer. Ao meu redor o exército ouvia minha canção e se juntava em louvor. 
Cerca de uma hora mais tarde eu senti. O mal. Meu corpo inteiro ficou tenso. A sensação da maldade estava na estrada, espreitando entre os viajantes. Eu alertei os anjos. "Estejam pronto." Sophio entrou no carro e sussurrou: "Ele ronda como um leão, procurando por alguém para devorar." Eu acenei concordando e procurei o rosto daqueles que estavam andando próximos ao carro.
Um homem se aproximou do carro. Ele perguntou a Maria:

— Você parece cansada. Gostaria de beber água?

Maria disse:

— Obrigada — enquanto pegava o odre que lhe foi oferecido.

Eu fiquei de pé em um salto, propositalmente batendo no braço do demônio. O odre caiu no chão enquanto Maria e José ouviam meus pedidos de desculpas. Apenas o homem me ouviu quando o desafiei:

BESTA DO INFERNO, VOCÊ NÃO DEVE TOCAR ESTA FILHA DE DEUS.

O demônio saiu do corpo do homem e puxou uma espada.

— Você não tem chance desta vez, Gabriel — ele gritou, e, de repente, dúzias de demônios apareceram de todos os lados e correram na direção de Maria.

— José — ela falou com o rosto cheio de dor enquanto segurava sua barriga na altura do útero. — Algo está errado. É, é como se algo estivesse espancando minha barriga. Eu estou com dores terríveis.

Instantaneamente eu me apropriei de minha forma angelical e me coloquei ao redor dela como um escudo. As espadas dos demônios me perfuravam. Eu senti seus ferrões — mas ela estava a salvo. Só então Paragon e sete anjos apareceram, cortando as costas dos demônios. As criaturas do mal foram distraídas, mas seguiam determinadas. 
O carro começou a balanças. O pânico tomava os viajantes. Ouvi um grito. Olhei para cima a tempo de ver Simão apertar a garganta. Seu rosto estava vermelho, e seus olhos esbugalhados. Ao redor de seu pescoço eu podia ver os dedos espinhosos de um trol. Outro demônio enfeitiçou o boi, fazendo com que ele desse uma guinada em direção ao cato da estrada.
Alguém gritou:

PARE O CARRO, HÁ UM DESPENHADEIRO ALI ADIANTE.

Um homem corajoso tentou segurar as rédeas, mas ele não conseguia movê-las. Mais tarde ele diria às pessoas que estava congelado de medo. Eu sabia mais: um demônio havia paralisado o homem na estrada.
Simão lutava para respirar e caía de um lado para o outro no assento. Eu sabia que ele estava morto. O animal possuído desviou-se loucamente em direção ao despenhadeiro. Eu olhei para Maria. O braço de José estava sobre sua barriga arredondada. Eu sabia que em segundos nós iríamos colidir no fundo do vale, lá embaixo. O carroceiro estava morto; o carro, fora de controle. Eu me virei e orei para o único que poderia ajudar. 
De dentro do útero, ele falou. Os pais dele não ouviram. A palavra não era para os ouvidos de Maria e José. Apenas os hospedeiros do céu e do inferno poderiam ouvir a palavra. E, quando o fizeram, todos pararam. 

VIDA!

A ordem inundou o carro tão completamente quanto teria inundado o Éden. Os demônios começaram a rastejar feito ratos.

VIDA!

A ordem veio pela segunda vez. Simão tossiu, e o ar preencheu seus pulmões.

— As rédeas! — gritei.

Ele respirou com dificuldade, agarrou as rédeas e se colocou firme. Com os olhos cheios de lágrimas ele viu o final da estrada e instintivamente puxou o animal para trás até que ele parasse. Estávamos salvos.
Mas, mesmo com os demônios longe, não contei com a sorte. Minha ordem para Sophio era urgente.

— Eles a acharam na estrada. Irão achar o quarto dela na estalagem. Faça o que tem que ser feito. 

Sophio me cumprimentou e alçou vôo, se antecipando para a estalagem em Belém.
Maria permaneceu abraçada pela minha luz. José olhava para ela alarmado; ela relaxou sob meus cuidados.

— Estou melhor agora — ela disse. — O que aconteceu ao rabino? (...)"

                              (Max Lucado)

CONTINUA...

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